Gabriel, o Pensador

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Duas décadas depois de “Tô feliz (Matei o presidente)”, o principal responsável pelo avanço do rap no Brasil fala sobre impeachment, influências artísticas e uma nova visão da escola

Há muitos e muitos anos, antes de São Google e do Youtube, existia uma época em que entregar uma fita demo para uma rádio ou gravadora e rezar para que alguém se interessasse era um dos únicos recursos imagináveis para artistas em busca de oportunidades. Era o início dos anos 90. E foi a partir de uma fita cassete dessas que Gabriel, o Pensador, então com 19 anos, lançou as primeiras âncoras do rap no Brasil com “Tô Feliz (Matei o Presidente)” na breve e tumultuada Era Collor.
O título de uma outra de suas músicas (“Lôraburra”) já foi institucionalizado no Brasil como um estereótipo para gente muito bonita que, independentemente do sexo, não tem nada na cabeça. O carioca de 43 anos, que conseguiu reciclar a carreira artística na era digital e ampliar seu público, hoje coordena projetos para profissionalização de jovens no futebol com Luiz Felipe Scolari e o português Luís Figo e ministra palestras para empresas, escolas e prefeituras. “Só reclamar não adianta. Precisamos agir.”

Fazendo jus ao apelido provocador, ele aproveitou o show na KzaNostra em Rio Verde para conversar com a KING e questionar os ares de falsa normalidade que insistimos em dar aos absurdos. “As pessoas no Brasil veem um caminhão tombado e deixam o motorista preso nas ferragens para saquear a carga.” Gabriel deixou de defender a decapitação de presidentes, mas comemora a cassação de prefeitos brasileiros por atos de corrupção. Autor de cinco livros, entre eles um vencedor do Prêmio Jabuti de melhor livro infantil em 2002 (“Um Garoto Chamado Roberto”), Gabriel também falou sobre educação, tecnologia, influências e política.

KING – Recentemente o senador Fernando Collor publicou um vídeo celebrando o retorno de seus carros de luxo, que haviam sido apreendidos pela Justiça. Mais de 20 anos depois do impeachment do “presidente jet ski”, você acha que a vida política nacional evoluiu ou a desfaçatez continua a mesma?
GABRIEL O PENSADOR – Acho que a política veio piorando de lá pra cá, com o desrespeito e a impunidade cada vez mais escancarados e os seus responsáveis cada vez mais descarados, sem o menor medo da opinião pública, mas graças ao esforço da imprensa, do Ministério Público e de uma minoria da população que sempre acreditou que não poderíamos nos calar, parece que estamos no início de um processo de diminuição da impunidade, o que é um começo, muito pequeno ainda, diante de tudo que precisa ser transformado, mas é melhor do que nada. Sem uma mudança real na educação da população, que possibilite um maior entendimento de como as coisas funcionam, vai ser dificílimo melhorar o nível dos nossos representantes eleitos.

Estamos no início de um processo de diminuição da impunidade, o que é um começo, muito pequeno ainda, mas é melhor do que nada

O seu primeiro grande sucesso aconteceu quando você era bastante jovem, no início dos anos 1990, e falava de um jogo de futebol com a cabeça do presidente. Hoje em dia, como você vê as críticas mais violentas à atual presidente? Não existe um equívoco ao se atribuir todos os problemas do país a uma só pessoa quando a realidade é bem mais complexa?
Essa pergunta já contém a própria resposta. É sim um equívoco achar que eliminando dois ou três personagens (seja por impeachment ou por decapitação) os problemas estarão resolvidos. Mas cobrar a cassação de mandato de alguns políticos continua sendo válido mesmo assim, se houver razão para sua cassação, como aconteceu recentemente com alguns prefeitos. Não sou um estudioso do assunto, mas fico feliz quando ouço essas histórias. Faz parte do processo de diminuição da impunidade. Isto me lembra a minha música Pega Ladrão, que diz que “a miséria só existe porque tem corrupção”, além do desemprego, da violência e de tantos outros males dos quais o Brasil não precisava sofrer. E isso é assunto que independe de que partido está no poder. É um problema crônico que está em todas as esferas do poder, dentro e fora da política (nas empresas, na polícia, e em tantos ramos de atividades). As pessoas no Brasil veem um caminhão tombado e deixam o motorista preso nas ferragens para saquear a carga. E quem passa acha isso quase normal.

Os smartphones e a internet estão criando uma nova geração de “lôrasburras” versão século 21, ou seja, deixando as relações humanas mais fúteis? Essas novas tecnologias ajudam ou atrapalham no seu processo de criação?
Sou a favor das novas tecnologias. No meu tempo as crianças brincavam mais na rua mas também existia o videogame e quem quisesse poderia ficar viciado naquela “nova tecnologia” da época. A culpa da nossa alienação não é das máquinas. Elas podem ser muito úteis. Quem me dera poder ter o Google e o google tradutor quando eu corria atrás das letras dos rappers americanos (que na época eram boas!) e tentava entender o que eles diziam e pesquisar os fatos que eles citavam. Fazer vídeos, fazer música, compartilhar ideias, pesquisar textos, escrever e ser lido… é tudo mais fácil hoje. Eu conto nas minhas palestras algumas histórias engraçadas de tentativas frustradas que eu tive quando queria me expressar ser ouvido, antes de gravar meu primeiro disco. Fazia panfleto, pintava faixa, levava para os amigos… uma vez liguei pra vários veículos de imprensa anunciando uma manifestação contra o racismo na universidade no dia seguinte. Peguei uma lista imensa de contatos que a minha mãe tinha e insisti muito com cada um para que fosse até a PUC cobrir uma manifestação contra o racismo. Ninguém foi, nem minha mãe! (Risos) Mas, se fossem, iriam encontrar um manifestante solitário com uma faixa de quinze metros estendida no chão, distribuindo um texto sobre o tema. Esta foi a primeira vez que assinei algo como “Gabriel o Pensador”, e tive a audácia de entregar pros colegas, pros funcionários e professores, mesmo sendo um calor ainda, e meio tímido.

As pessoas veem um caminhão tombado e deixam o motorista preso nas ferragens para saquear a carga. E quem passa acha isso quase normal

Em “Estudo Errado” você criticava o “decoreba” como método de ensino nas escolas. O que falta nas escolas hoje em dia? As escolas podem ser mais do que os centros de treinamento para o Enem?
Não vejo mudança nos métodos de ensino e isso é triste. Por outro lado tenho participado de eventos ligados ao SESI e ao SENAI, e também ao SEBRAE e ao IEL, que trabalha com os estagiários e instituições de ensino superior de todo o país, e vejo uma juventude muito afim de quebrar paradigmas, inovar e produzir muita coisa boa pro país, na educação profissional e também nas faculdades tradicionais. Se tivéssemos um avanço no ensino médio e fundamental no Brasil, seríamos ainda mais férteis e veríamos surgir muitos gênios, mas essa galera jovem que encontro nesses eventos já me traz muito otimismo e pode render muitos resultados positivos, apesar das dificuldades que enfrentaram pra chegar até lá. Somos muito criativos. Acho que temos muitos Oscares Niemeyers segurando fuzil ainda nas favelas, mas vamos trabalhar em vez de ficar só reclamando. O importante é abrir cada vez caminhos pra essa garotada, independente do atraso dos métodos de ensino, e da dificuldade de se mexer nisso.

Um avanço na educação nos tornaria mais férteis e faria surgir muitos gênios. tem muitos ‘oscares niemeyers’ de fuzil na favela

Na música você tem influências de diversos estilos nacionais e estrangeiros, mas você também é escritor. Quais são os autores e livros que mais fizeram a sua cabeça até hoje?
Qualquer forma de expressão pode ser inspiradora. Um graffiti no muro, uma frase, uma peça de teatro, um filme, um anúncio publicitário, uma piada. As letras de música me chamaram a atenção desde sempre porque me considero um cara muito musical, mesmo sem aprender a tocar um instrumento, muito atento às sonoridades e divisões rítmicas de tudo que escutava. Do samba e da MPB ao rock brasileiro, tínhamos muita coisa boa sendo escrita na época em forma de música por aqui. E do que vinha de fora eu me ligava mais em reggae e rap. Tanto nos livros ou em outras formas de comunicação, o que me inspira é muito mais o que me emociona do que o que mexe apenas com o racional. Também gosto de ironia e humor. Era muito fã do Chico Anysio e do Jô com seus personagens. Eu gostava de ler crônicas e contos e li um livro do Chico, O enterro do anão. Carlos Eduardo Novaes era outro com humor crítico afiado. Assim como o Veríssimo e o João Ubaldo. Gosto de Rubem Fonseca e lia Nelson Rodrigues no metrô. Lima Barreto, Machado de Assis, nada disso em muita quantidade, nunca fui um leitor voraz, mas ler um pouco de cada estilo foi bem útil para apreciar as várias formas de abordagem e olhares distintos, cada um com a sua “pegada”, como se estivesse ouvindo músicas de estilos diferentes. Tudo que li me fez bem, e nas feiras literárias em que me apresento eu incentivo a leitura de qualquer tipo de livro. Ou melhor, de qualquer tipo de texto. Voltando um pouco, lembro de minha avó contando histórias, lembro de ficar lendo gibis em quadrinhos por horas enquanto meu pai bebia com os amigos nos domingos, lembro de Ziraldo, Monteiro Lobato, Paulo Coelho, Agatha Christie… livros de mistério eram bons porque a curiosidade nos obrigava a terminar a leitura, ao contrário de alguns livros que a escola passava e às vezes a gente nem lia por inteiro. Mas me mandaram ler o Diário de Anne Frank e um livro do Amir Klink e descobri que gostava de biografias. Então peguei algumas sobre Gandhi, Malcom X, Martin Luther King, Sócrates e lembro que me identifiquei com aqueles caras tão corajosos e contestadores. Na área da poesia sou bastante leigo, nunca estudei os grandes poetas e gosto muito de expressões mais populares como os livros de Cordel ou os poemas do Vinicius. Fernando Pessoa quero conhecer melhor porque o que caiu no meu colo me emocionou e eu amo Portugal e de tanto que já fui pra lá, me identifico com o jeito dos portugueses sentirem algumas coisas. Já li algumas quadrinhas interessantes de poetas populares portugueses que lembram a pureza de Noel Rosa, Cartola, Luis Gonzaga… Na verdade só me lembro de um deles, António Aleixo, que cheguei a citar em uma música. “Quem trabalha e mata a fome não come o pão de ninguém, mas quem come e não trabalha sempre come o pão de alguém”.

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