Hwaskar Fagundes

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O empresário com nome de imperador inca, ex-jogador de vôlei profissional, oficial da reserva e campeão de tiro esportivo conta como ergueu em Rio Verde uma das maiores construtoras do País

Se não fosse por uma lesão no joelho nas vésperas da convocação para a seleção mineira de vôlei, o então atacante titular do Uberlândia Tênis Clube (UTC) Hwaskar Fagundes provavelmente teria seguido carreira no esporte e até dividido a quadra com estrelas do vôlei brasileiro dos anos 1990. Por pouco, não foi colega de equipe do ex- atacante da seleção Giovane, em Juiz de Fora (MG). Recuperado da cirurgia, ainda seguiu carreira no vôlei de areia e chegou a ser campeão de uma etapa do Banco do Brasil Open, em Caldas Novas, até mudar de ideia e focar no curso de engenharia civil da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Hoje, aos 42 anos e à frente da 13ª maior construtora do Brasil, o presidente da HF Engenharia ainda fala com a vibração de um atleta e a autoconfiança inabalável de quem chegou ao sucesso sem apadrinhamentos e, muitas vezes, arriscando tudo para continuar crescendo. Atualmente, a empresa produz 35 casas por dia, espalhadas em 22 canteiros de obras no Brasil, e já entregou 7 mil unidades do programa federal Minha Casa, Minha Vida.

Ainda apaixonado por esportes e competição – é presidente do Clube do Tiro de Rio Verde há 12 anos e já venceu uma etapa do circuito nacional de tiro esportivo – Hwaskar recebeu os editores da KING Fernando Machado e Thiago Pereira para uma entrevista sobre sua trajetória pessoal e o mundo dos negócios. Na conversa, o dono das iniciais mais famosas do setor imobiliário falou como a inovação, a disciplina e seus instintos foram cruciais na sua escalada.

King – As empresas que chegam ao porte da HF Engenharia normalmente transferem a sede administrativa para os grandes centros comerciais. Por que até hoje mantém o head quarter em Rio Verde?
Hwaskar Fagundes – Realmente seria muito mais fácil para a gente estar em São Paulo, até pela necessidade de reunir os diretores e tudo mais. Quando a empresa cresce muito, as coisas começam a ser tratadas em outros níveis. Como nosso negócio tem uma parceria muito intensa com os bancos, precisamos nos relacionar com as esferas superiores dessas instituições, que estão em São Paulo, Rio de Janeiro ou Goiânia. É muito mais complicado fazer isso com nossa sede no interior de Goiás. Por outro lado, acredito que a gente se torna uma referência por conta disso. Os diretores dessas instituições que ainda não nos conhecem bem, pelo menos já ouviram falar da HF. Não quero dizer que seja marketing, mas não deixa de ser interessante para a empresa se manter no interior. E tem a questão familiar, o carinho que tenho pela cidade. Sou de Itumbiara, mas moro aqui há 17 anos e há muito tempo me considero rio-verdense. Tenho orgulho de ter sido aqui que eu aprendi a trabalhar. Então é uma questão afetiva mesmo.

Como era sua cabeça quando terminou a faculdade em Uberlândia e veio trabalhar em Rio Verde? Você já imaginava que a cidade se desenvolveria dessa maneira e que teria um negócio de tanto sucesso?
É engraçado. Quando eu estava na metade do curso, meu pai me falou: “você vai montar uma empresa chamada HF em Rio Verde e vai construir prédio.” Eu juro que, naquele momento, pensei “alguém vai ficar decepcionado demais comigo.” Eu tinha uma cabeça universitária ainda. Eu era atleta e achava que meu futuro era no esporte. Jogava vôlei profissionalmente em Uberlândia. Eu vivi disso uns três anos da minha vida. Nunca passou pela minha cabeça que eu teria a responsabilidade que tenho hoje. Pensava que iria me formar, mas meu gosto era jogar vôlei. No entanto, quando terminei a faculdade, já estava encaminhado para trabalhar em outros lugares como engenheiro. Daí meu pai me chamou para vir para Rio Verde, dizendo que a cidade estava entrando numa fase muito boa. Meu baile de formatura foi num sábado. Na segunda-feira eu já estava trabalhando em Rio Verde, numa empresa que se chamava Rio Manso. Eu te confesso que bateu um estalo em mim porque era uma empresa pequena e, no segundo mês de trabalho, comprei uma parte dela e me tornei sócio. Eu aprendi desde o começo da carreira a ter um papel de coordenação das coisas e vi que o caminho era este. Eu sofri bastante para me adaptar à cidade. Gostava demais de morar em Uberlândia e vim atuar em núcleos muito pequenos, como Porteirão, Maurilândia e Acreúna, mas logo a Perdigão veio para cá e as coisas foram avançando.

Achava que seria jogador de vôlei. Vivi disso três anos da minha vida

A construção civil é um negócio de alto risco?
Sem dúvida, muito mais do que outras áreas. Falo isso porque, além do investimento ser muito alto, a quantidade de variáveis é muito maior. É um negócio que tem o risco da natureza, de não receber os insumos, da mão-de-obra e de acidentes. A construção é um dos setores de maior risco. Há poucos dias eu conversava com um amigo, que trabalha com laticínios. Ele visitou uma unidade na Alemanha que produz 1,5 milhão de litros por dia e tem 40 funcionários. Ela tem um faturamento de 200 milhões de dólares por ano. Para ter esse mesmo faturamento, uma construtora precisaria ter no mínimo 4 mil funcionários.

Você se considera um workaholic? É preciso realmente ser viciado em trabalho para administrar um negócio tão complexo?
Eu gosto muito de trabalhar. Isso eu não posso negar. É o que eu sei fazer. Chegou um momento da minha vida um tempo atrás em que eu precisava delegar responsabilidades. Acho que um dos pontos positivos profissionais e pessoais meus foi reconhecer minhas limitações. Eu queria crescer, mas queria fazer isso da maneira certa. Comecei a contratar e me cercar de bons profissionais. Você não precisa se matar para ter sucesso. As coisas não acontecem se você tenta fazer tudo sozinho. Eu dormia três horas por noite e achava que isso era bonito. Não é. Quando você começa com um negócio pequeno, que depois se torna médio até chegar num patamar bem maior, esses intervalos são a parte mais difícil. É quando existe a incerteza se você vai chegar onde quer e a dúvida do que vai poder investir. Todo crescimento requer investimento em gente, em tecnologia, em infraestrutura. Na hora que você começa a crescer e quer crescer muito mais, vem aquele questionamento “será que eu invisto tudo o que eu ganhei de novo ou eu fico quieto?” Ou então: “pô, vou contratar um cara que vai ganhar mais do que eu?” Eu passei por tudo isso. É nesse ponto que a gente busca conhecimento e sai da zona de conforto para entender o mercado de uma forma muito mais ampla e complexa. Tem muita gente que acha bonito ser viciado em trabalho. Na verdade, você precisa gostar do que faz, mas ter um equilíbrio. Mesmo porque, se você se esgotar durante um espaço de tempo, vai produzir muito menos. É preciso ter inteligência para saber se poupar. Se estiver descansado, você decide melhor. Quando você está na condição de executivo, a responsabilidade é muito alta. Uma decisão errada põe tudo a perder. Se você perguntar para a minha esposa, ela provavelmente vai dizer que sou viciado em trabalho (risos), mas hoje eu me contenho muito e busco ter equilíbrio.

Eu pensava ‘pô, vou contratar um cara que vai ganhar mais do que eu?

É verdade que a HF estuda fazer incorporações nos EUA? Em que áreas estão essas oportunidades?
Há algum tempo, uma revista norte-americana (Business Review Brasil) entrou em contato com a gente e quis saber das nossas prospecções. A gente comentou que a economia brasileira estava se estabilizando e a americana estava em crescimento pleno e que tínhamos ido a um seminário do Banco do Brasil sobre financiamentos nos EUA. Isso nos interessou e buscamos mais informações. Existem muitas empresas em Goiânia que estão fazendo incorporações lá. É um mercado que se reascendeu. Passou a crise imobiliária. A ideia era procurar algumas áreas em Miami para vender para brasileiros, mas isso está dependendo de vários outros fatores. É uma ideia que está sendo estudada. Não há nada de concreto ainda.

O mercado de imóveis está em alta há alguns anos e isso atraiu investidores nacionais e estrangeiros. Para ter uma capitalização rápida, muitas construtoras abriram capital na bolsa. É interessante para a HF oferecer ações no mercado financeiro?
Muitas empresas resolveram seguir esse caminho. Obviamente estavam mais preparadas do que a gente para isso. São grupos com histórico bem maior de incorporações e que decidiram abrir capital. A vantagem é que você passa a ter acesso a recursos de uma forma quase ilimitada, mas tem uma responsabilidade para com o investidor. Só que o resultado da construção civil não é imediato. Durante uma construção, a captação de recursos representa menos da metade do valor da obra, que dura em média três anos. Quando a empresa abre capital, ela tem que ter balanços anuais positivos. Caso contrário, o investidor começa a retirar capital, as ações perdem valor e a marca perde posições no mercado. Não queríamos correr o risco de queimar a marca de graça. O mercado começou a perceber que as construtoras tinham um resultado bom no início, devido aos lançamentos de obras, mas depois entravam em uma fase de maturação para somente depois aquilo se tornar uma realidade financeira. Quando a gente começou a trabalhar com incorporações, nunca passou pela cabeça abrir ações. Nós estamos partindo para transformar a HF em uma empresa S.A. (Sociedade Anônima) por questões bancárias, financeiras e de transparência contábil. Uma vez que a empresa é Limitada, não tem obrigação de auditar e publicar balanços, porém os sócios ficam muito mais expostos. Partindo para S.A.,ela deixa de ter um dono específico. Ela passa a ter ações. Passarei a ser um acionista. Temos um serviço de consultoria para que, no final de 2014 e início de 2015, a gente já tenha feito esta mudança. Isso dará muito mais solidez e confiabilidade. A gente tem consciência de que pode ser o primeiro passo para abrir o capital, mas não é a nossa intenção. A gente não sabe o dia de amanhã, pode até ser que a empresa ofereça ações, mas o nosso objetivo agora é ter uma transparência contábil bem maior.

Imagina 800 homens trabalhando na construção de mil casas.  É uma cidade!

A HF teve um papel pioneiro que acabou sendo importante para a regulamentação da substituição da alvenaria tradicional pelo uso do concreto armado no Brasil. A inovação foi decisiva para o crescimento da empresa?
Na verdade, a parede de concreto armado já existia no mundo inteiro, mas não era normatizada no Brasil. Quando a gente foi construir no Pará, tivemos um problema muito sério com mão-de-obra. Não de quantidade, mas de qualidade. Para fazer uma casa que a gente faz, qualquer João da esquina faz. Para fazer 10 casas, já depende do João. Para fazer 100 casas, aí já tem que ser a empresa do João. Agora, para fazer mil, aí você tem que ver que João é esse e que empresa é essa. Envolve muita coisa. Imagina 800 homens trabalhando na construção de mil casas. É uma cidade. Encontramos uma dificuldade imensa por conta de situações como desperdício e até furtos de material. Com a tecnologia em concreto armado, a gente conseguiu diminuir a mão-de-obra em dois terços. É muita coisa. Para cada mil casas, eu tinha 800 homens. Agora são 250. Reduzimos comida, equipamento de proteção, uniforme, salário, passivo trabalhista e muito, mas muito mesmo o risco de acidentes. Hoje eu não trato com tijolo, areia, reboco. Eu diminuí etapas. Virou uma linha de produção. Uma casa fica pronta em três dias úteis.

Você sente saudades da época de atleta?
Foi uma fase muito boa mesmo. Eu joguei profissionalmente pelo Uberlândia Tênis Clube (UTC), mas tive de operar o joelho. Depois disso, passei a jogar vôlei de areia com um amigo de São Paulo. A gente ganhou uma etapa do Banco do Brasil Open, em Caldas Novas, em que fomos patrocinados pelo Clube Privé. Fiquei uns três anos me mantendo financeiramente com o vôlei. Por isso achava que era esse meu futuro. O auge que eu cheguei foi uma convocação para a seleção mineira para os jogos universitários brasileiros. Não sou muito alto. Tenho 1,84m. Mas conseguia jogar como atacante em um nível técnico bastante elevado. Se eu não tivesse machucado o joelho, jogaria no mesmo time do Giovane, em Juiz de Fora. Mas o tempo foi passado e uma hora vi que o melhor era estudar (risos).

Tranquei a faculdade para ficar comandando pelotão no exército

Como surgiu sua paixão por armas e pelo tiro esportivo?
Isso veio do Exército. Eu sou oficial da reserva. Eu tinha acabado de entrar na faculdade e resolvi ingressar como voluntário no 36º Batalhão de Infantaria de Uberlândia. Isso em 1991. Como era atleta e universitário, tinha um perfil adequado para complementar o quadro de oficiais. Eram 500 candidatos para 30 vagas. Eu fiz o curso e me classifiquei em 12º colocado. Eu era e ainda sou apaixonado pelo Exército. Eu tranquei a faculdade por conta disso. Fiquei uns quatro meses comandando pelotão. Na infantaria motorizada a gente tinha contato com tudo: fuzil, pistolas, metralhadoras, morteiros, canhão. Aí voltei para a faculdade, terminei o curso e continuei com esse gosto por arma de fogo. Quando vim para Rio Verde, fui apresentado ao Clube de Tiro e comecei a praticar. Em 2003, eu fui campeão de uma etapa do campeonato brasileiro de tiro prático com pistola.

Existe uma qualidade particular sua que você considera que foi fundamental para o seu crescimento pessoal e profissional?
Eu não sou o melhor engenheiro, nem o melhor contador ou muito menos o melhor empresário. Estou muito longe disso. Acho que sou um bom técnico e que a minha melhor qualidade é convocar as pessoas e identificar em quais funções ela pode desempenhar toda sua capacidade, todo seu talento. Às vezes você tem um profissional excepcional, mas percebe que ele não está no lugar certo, que renderia muito mais em outra área. Muitas pessoas com comando aqui dentro da empresa são mais novas do que eu, só que mais capacitadas. Quando você cria um empreendimento, você quer que ele tenha o seu perfil, mas a partir de determinado ponto é preciso procurar profissionais mais qualificados do que você. Acredito que tenho esse feeling de identificar características das pessoas para aproveitar o melhor delas.

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